Faço e depois penso. Não percebia bem o que o meu corpo já ditava, porque ainda não o nomeava. Ele já o fazia; eu é que não sabia. O diário sempre esteve presente na minha prática, desde que me lembro de existir, desde que comecei a estruturar as minhas ideias e o meu imaginário. Procurava um caminho organizado, mas sempre o encontrei desarrumado por dentro, talvez porque essa sequência de passos nunca foi retilínea, mas curvilínea. Afinal, esta forma de trabalhar já tinha nome: investigação baseada na prática. E o meu método já era muito meu:
Fazer primeiro; o pensamento vem depois, sem ser menos importante;
Soltar o lápis e escrever os primeiros pensamentos, a que chamo desabafos;
Voltar, enquanto corpo, a determinados lugares e captar momentos precisos;
Datar tudo o que escrevo e fotografo;
Construir fanzines, os livros únicos dos meus processos artísticos: entre colagens, rasgos, sobreposições, escrita e diferentes materiais, são o lado analógico da minha investigação;
Habitar o espaço com o corpo: é ele que decide como as obras se dispõem e se constroem em cada lugar.
Depois do fazer com o corpo vem o pensamento: as leituras, as pesquisas filosóficas e fenomenológicas. E percebo que crio para dar resposta à forma como perceciono o mundo.